Um dia sem o meu celular

Vamos imaginar juntos por um momento uma situação: “Seu celular quebrou na noite anterior e você o deixou para consertar. Ficará um dia sem ele, voltará a ter acesso amanhã no final do dia, por volta de 19:00 hs.” Como será o seu dia amanhã sem seu melhor companheiro, sem o seu computador de mão que lhe dá acesso ao mundo?

Direitos da Fotografia: pathdoc via Adobe Acrobat

Vamos contextualizar um pouco. O uso do celular em países emergentes é maior do que em países desenvolvidos, segundo matéria do CanalTech.

https://canaltech.com.br/internet/brasil-e-o-segundo-pais-do-mundo-a-passar-mais-tempo-na-internet-131925/

A matéria ainda mostra que o  Brasil é o segundo país do mundo que passa mais tempo conectado à internet. No mundo as pessoas ficam em média 06:42 minutos conectadas à internet, enquanto que no Brasil as pessoas ficam 09:29 minutos em média todos os dias.

O mesmo estudo mostra que cerca de 67% da população mundial possui um aparelho celular e grande parte dos novos usuários adquirem seus aparelhos celulares para participarem das mídias sociais.

Bom, vamos tentar comprovar a veracidade dos dados criando uma situação que pode perfeitamente ser real na vida de cada um de nós. Nosso celular quebrou e ficaremos um dia sem ele.

Você acorda pela manhã e provavelmente se dirige ao seu banheiro sem o seu celular. Um vazio bate forte neste momento e você procura insanamente por uma revista, por um jornal e lembra que cancelou todas as suas assinaturas para a forma digital, acesso a eles somente via internet agora. Então você decide prosseguir sem nada mesmo. Levar um livro ao banheiro seria uma boa idéia, você pensa, mas não sei, é meio anti-higiênico… bem, você decide ir desnudo de leituras mesmo.

Você sai do banheiro depois de planejar com calma o seu dia. Estudos indicam que as melhores idéias acontecem quando você está relaxado, no chuveiro por exemplo. Se arruma com calma, toma cuidado para colocar as meias “iguais” e que combinam com a roupa escolhida e senta para tomar um café. De repente você se dá conta de que tem um cachorro e dois gatos na casa e eles lhe pedem atenção. Você troca carinho com eles e isto torna sua manhã mais feliz, bem como a deles que serelepes demonstram a você toda a sua alegria.

Nossa! E se alguém estiver a minha procura? E agora? Você entra em pânico por 5 segundos, mas se recorda que enviou uma mensagem a todos dizendo que seu celular quebrou e ficará sem ele durante todo o dia, então pensa : “Bom, as pessoas sabendo disto vão enviar e-mails. Que alivio!”

Você acaba o seu café depois de ter pensado na sua agenda com calma, ter trocado carinho com seus animaizinhos de estimação e agora você se prepara para ir para o trabalho (vamos imaginar que já saímos do confinamento, certo?). Entra no elevador e repara que trocaram os botões do carro, colocaram um quadro de avisos e lê o comunicado da semana pela primeira vez. O condomínio vai aumentar 10%, ainda bem que vc leu e poderá se programar financeiramente no mês seguinte. Você se olha no espelho e repara o quão reluzente está, “será um grande dia!”

Entra no carro e tenta ligar o Waze, mas sem celular é impossível. Caramba, você está tão acostumado a seguir o Waze que nem lembra mais ao certo o caminho do trabalho. Bate novamente aquele pânico de 5 segundos, afinal pode ter um trânsito infernal te aguardando lá fora. Resolve então seguir os seus instintos e ir pelo “caminho da roça”, aquele comum que sempre fazia antes do Waze entrar em sua vida.

Você pára no farol e olha para o lado. Aquela olhadela proibida no celular nem pensar, ele não está lá. “Ufa, pelo menos não serei multado hoje, você pensa.” De repente você lembra que pode pensar onde vai almoçar, o que vai comer, você lembra que amanhã é aniversário do seu melhor amigo e que precisa lhe comprar um presente. Ótimo você vai almoçar no Shopping perto da empresa hoje, afinal faz tanto tempo que não faz isto. “Se eu tivesse com meu celular, poderia já olhar o que comprar, ver os preços, comparar produtos e até deixar encomendado na loja. Que perda de tempo!”

Você chega no escritório, 25 minutos mais tarde da hora habitual. Você repara que continua sendo um dos primeiros a chegar e sente uma alegria diferente quando comentam que tem pelo de cachorro na perna da sua calça. Seu colega, um que sempre está por perto e você diz bom dia todos os dias, mas se quer lembra seu nome, te pergunta se tem um cachorro, qual a raça, o nome, pergunta se tem uma foto. Você responde e lembra que lamentavelmente está sem o celular para mostrar as fotos. Puxa, você não vai conseguir fazer aquela self engraçada para mandar no grupo do clube. Tão pouco poderá ver o que estão falando no grupo. E se estiverem falando de mim? Bem, você lembra que quem está ausente vira assunto durante todo o dia, mas logo é esquecido. Lembra também que os temas são sempre os mesmos, política, seu clube de coração empatou o jogo do final de semana de novo, figurinhas, figurinhas e mais figurinhas. “Tudo bem, eu vou sobreviver!”, você pensa.

Você entra no seu computador e repara que chegaram poucas mensagens importantes. “Ufa! Não perdi muita coisa!” Você apaga 50% de mensagens que são do tipo spam e passa o olho naquelas em que está em cópia somente. Repara que sobraram 5 mensagens realmente importantes e as responde com total calma, sem dar aquela passadinha básica nas mídias sociais.

Hora do almoço! Você vai ao shopping pra comprar o presente do seu amigo como planejou. No caminho repara como os Ipês estão floridos, um casal de maritacas no fio elétrico conversando é engraçado. Repara a felicidade do catador de papelão ao receber um bom dia e retribuir, “ele parece bem feliz”, você reflete consigo. Que troca de energia bacana você está sentindo. “Meu Deus, pintaram a fachada da floricultura e, não espera, mudou o dono e nem floricultura é mais, agora é uma loja de doces! Nossa, a dona anterior era tão bacana o que será que aconteceu?” Você repara que o mundo mudou muito à sua volta e que não tinha a menor idéia. Provavelmente recomendaria a floricultura a alguém que o perguntasse, mas seria equivocado indicá-la!

Você consegue olhar as lojas e decide comprar uma camisa para o seu amigo. Consegue dar atenção para a vendedora que explica em detalhes o número de fios, a cor, o tamanho, o tipo do corte. “Nossa nem sabia que tinha tantos detalhes para comprar uma camisa, pela internet não tem esta personalização”, pensa você. Mas certamente comprou o tamanho certo e a camisa que seu amigo vai adorar, afinal prestou atenção em cada detalhe.

Você volta para o escritório, participa efusivamente de duas reuniões importantes, afinal conseguiu ter tempo para se preparar. Como resultado o seu chefe te elogia e agradece pelo trabalho sensacional que fez. Seu funcionário aproveita e pede para que o ajude numa questão urgente e você resolve tão rápido que sobrou tempo para lhe dar um feedback de qualidade. Repara o brilho nos olhos do seu funcionário e pensa quão dedicado ele é, poderia pensar em lhe dar mais responsabilidades…

Seu dia vai chegando ao fim e está quase na hora de pegar o seu celular de volta. “Nossa, que saudade!”. Vou fazer uma self, mandar para meu novo colega a foto do meu cachorro, mandar um WhatsApp para meu funcionário, ler todas as mensagens, entrar em uma Virtual Meeting com a minha família, trabalhar o novo texto do blog e por fim, na hora de deitar eu vou assistir a mais um capítulo da minha série favorita, ou ler o meu livro de cabeceira no aplicativo do Kindle. Mas antes, é claro, eu vou dar uma passadinha nas mídias sociais e ligar o Waze, afinal não quero ficar muito tempo no carro. Vou aproveitar e colocar minha playlist predileta do Spotify para tocar no carro. “Ah! A minha vida estará de volta, eu comigo mesmo e às vezes com o mundo lá fora se der tempo. De volta com o poder de me comunicar com milhares de pessoas ao mesmo tempo e receber likes e estrelinhas, tipo aquele episódio do Black Mirror que me deixou inquieto durante dias, mas tudo bem!”

Você volta à razão e chega à conclusão de que o ser humano definitivamente está doente, precisa encontrar o equilíbrio entre sua vida orgânica, relacional com o mundão lá fora, e a sua relação com a vida digital. Esta sensação de que preciso estar 100% conectado com todos e participando de tudo, faz com que o tempo passe, as relações sejam mais frias e nos tornemos muito mais indiferentes ao lado humano. Tecnologia é bom, é necessária, mas não podemos viver numa bolha e perder o que de melhor existe, a humanidade, o afeto verdadeiro e cuidarmos uns dos outros.

A Suécia é uma referência na qualidade de vida de sua população. Atualmente as empresas locais buscam aumentar ainda mais esta qualidade de vida para os seus funcionários de modo que possam usufruir de suas conquistas materiais em família. Estão testando algumas fórmulas para a redução da jornada de trabalho subtraindo um dia de trabalho na semana, ou 6 horas de trabalho diárias, sem redução dos salários. Mas, durante o expediente de 6 horas diárias o foco precisa estar 100% no trabalho, sem distrações com celular por exemplo. A partir daí terão mais tempo para passar com as suas famílias. Os primeiros resultados destes estudos mostram uma queda nos custos com saúde, mas definitivamente precisarão fazer uma jornada transformacional, pois reduzir as horas de todos os setores ao mesmo tempo, aumentará os custos no curto prazo para o estado.

Ao que parece os países desenvolvidos já encontraram uma forma de serem menos dependentes desta cultura digital desenfreada. Encontraram alguma forma de equilíbrio sem deixar de dar valor à cultura base de nossos pais e avós de se relacionar à mesa, assistir a um filme juntos e de comungar com a natureza. Uma coisa não exclue a outra, podem conviver e serem complementares. Precisamos buscar logo o equilíbrio, afinal a tecnologia é aliada para a melhoria da qualidade de vida das pessoas, e como tudo na vida, o que é exagerado, é prejudicial!

Published by flaviocarnaval

- Experience of over 25 years in companies in the IT and Services segment working in the areas of Consultative Sales, Inspiration for Innovation, Building Complex Businesses, Strategic Alliances - Hunting profile working in verticals in industries such as: Telco, Finance, Healthcare and Manufacturing - Strong technical bias for Cloud, ERP, RPA, BI / BA, CRM and Professional Services solutions - Profitable networking with customers, technology providers and startups - DNA aimed at delivering results above the target with several awards in the curriculum - Great experience on creating: organizational model, business model, hiring people, processes and delivering results - Last 7 years, coordinating teams focused on developing high performance teams - Skill in complex negotiation and excellent interpersonal skills. - Extensive international experience mainly in the USA - MBA in Sales Management, Sales Management by (Harvard Business School), several certifications in management, as well as in technical areas - Excellent Oratory, continuous writing practice (Owner of BlogDoCarna.com), didactic

8 thoughts on “Um dia sem o meu celular

  1. Parabéns Flávio, mto interessante o texto. Eu, q sou um pouco mais velhinho, lembro mto bem como era viver sem o celular e fazíamos td exatamente como vc descreveu. Muito bom.

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  2. Parabéns Flávio, espero que muitos que venham a ler esse belo texto possam experimentar ficar ” um dia sem o celular” e com isso sair do banco do passageiro e assumir o controle das suas escolhas pois tudo se inicia no plano mental através de uma intenção em ir em direção ao seu propósito de vida, que espero que de grande parte seja ser feliz, pois com isso qualquer caminho escolhido mesmo com obstáculos chegará até lá.

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  3. Estimado Flavio Carnal excelente texto que nos remete a uma profunda reflexão, entre tantas, a sensação de estar “em todos lugares” sem realmente estar em lugar nenhum, em especial o de buscar em estar consigo mesmo e os devidos cuidados da vigilância dos nossos sentidos sob pena de ficarmos “escravos” ou dominados. O Cenário atual nos convida a refletir as profundas mudanças que irão surgir no renascer de um novo ciclo o de a ciência e a tecnologia se desdobra para novos desafios. Ma aqui eu me resguardo a refletir….”Homem conheça-te a ti mesmo!
    Parabéns pelo Blog desejo muito sucesso, e que seus conhecimentos e sabedoria seja sempre presente em sua vida!

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  4. Muito bom, essa semana voltei a dedicar ao meu blog (o que fazia meses que não parava) e com essa quarentena percebi exatamente isso, como podemos desfrutar mais do agora, do orgânico. Um dos motivos que ainda tenho o blog e gosto de publicar é o prazer da leitura, sem pressa… traz um sentimento inexplicável. Talvez com esse momento possamos equilibrar o lado humano com a tecnologia.

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